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09/03/2010

Estudantes do ensino médio são impedidos de estagiar por falta de adequação das escolas

Escolas de todo o país ainda não fizeram a tarefa de inserir o estágio em seu projeto político-pedagógico. Sem esse dever cumprido, cabe aos alunos voltar para casa depois da aula, pois não podem estagiar.

O problema está na Lei do Estágio (nº 11.788), de setembro de 2008, a primeira a especificar claramente a possibilidade de estágio no ensino médio. Segundo o texto, o Termo de Compromisso do Estágio -um contrato entre escola, estudante e empresa- só é válido se constar do PPP (projeto político-pedagógico) do colégio.

A rigor, uma frase nesse documento garante a conformidade com a lei. Mas grande parte das escolas brasileiras ainda não fez essa modificação, apontam agentes locais de integração entre empresas e estudantes, delegacias regionais do trabalho e membros de conselhos estaduais de educação ouvidos pela Folha.

Acre, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte e Rondônia estão entre os Estados que apresentam problemas. A maioria, entretanto, avança na adequação.

 

Fraude

Mesmo que todas as demais exigências, como supervisão por professores, sejam cumpridas, sem a alteração no PPP o estágio é considerado fraude trabalhista, explica Cássio Casagrande, membro da Coordenadoria Nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho, do Ministério Público do Trabalho.

Ele afirma que, em todo o país, há denúncias de termos de estágio assinados sem que o PPP esteja adaptado. O IEL (Instituto Euvaldo Lodi) e o Ciee (Centro de Integração Empresa-Escola) afirmam que fazem ações em diversos Estados para estimular a adequação à lei.

Para o superintendente nacional de operações do Ciee, Eduardo de Oliveira, há um aumento do interesse das escolas e das secretarias nesse ajuste. "A oferta [de estágio] estimula as escolas a aderirem à lei. Até porque o aluno cobra."

Ou troca de escola, como fez Ully Evelyn da Costa Ayres, 19. Ela mudou para colégio adequado à lei para poder depois de perder uma vaga de estágio. "Preciso ajudar minha mãe em casa. O estágio dá mais responsabilidade e ajuda a escolher o que quero fazer na faculdade."

Matheus do Brasil, 19, do Maranhão, também ficou sem atividade. "Se estivesse numa escola particular não teria perdido meu estágio. Foi só com os alunos das públicas", diz.

 

Frases

"Preciso ajudar [financeiramente] minha mãe em casa. [Além disso,] o estágio dá responsabilidade e ajuda a escolher o que quero fazer na faculdade". ULLY EVELYN DA COSTA AYRES, 19, estudante do Acre que mudou para uma escola adequada à Lei do Estágio.

 

"As escolas estão irregulares. E isso não é só aqui [no Rio Grande do Norte], é em todo o Nordeste". JOEL ADONIAS DANTAS NETO, auditor da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Norte.

 

"A oferta [de estágio] estimula as escolas a aderirem à lei. Até porque o aluno cobra". EDUARDO DE OLIVEIRA, superintende nacional de operações do Ciee.

 


Estados avançam, mas poucos resolvem o problema na totalidade das unidades

 

Alguns Estados afirmam ter resolvido o problema da inserção do estágio no PPP (projeto político-pedagógico) da escola por meio de um texto para toda a rede estadual de ensino. É o caso de Minas Gerais e São Paulo. A Secretaria de Educação do primeiro o fez pelo decreto nº 45.036/ 09, e, a do segundo, pela resolução SE-40.

A Secretaria de Educação do Rio de Janeiro também assegura contar com texto estadual, mas reconhece que ele não isenta as escolas da necessidade de incluir o estágio no PPP.

No Paraná, as escolas públicas e privadas foram regulamentadas no ano passado. Outros Estados progridem, mas boa parte não resolveu o problema na totalidade das escolas. A Secretaria de Educação do Ceará, por exemplo, prevê que os colégios estarão adaptados neste ano. No Rio Grande do Sul, 95% dos colégios incluíram a possibilidade de estágio no PPP, diz a secretaria de Educação.

Parte do avanço nesses Estados - e em outros, como Acre, Amazonas e Rondônia- deveu-se a encontros entre agentes de integração de estágio, diretores de escola e secretarias estaduais de educação. Juntos, debateram fórmulas e estimularam escolas a se adaptar e supervisionar os estudantes. A fiscalização também tende a gerar resultados.

Na Bahia, a Superintendência Regional do Trabalho afirma que cobra os centros integradores para que permitam que apenas estudantes de escolas adaptadas estagiem. No Maranhão, os estágios foram suspensos por ordem da Procuradoria Regional do Trabalho. A Folha não obteve resposta das demais secretarias estaduais de Educação.

 

Gestor deve analisar se finalidade é educacional

 

Após o estágio ser inserido no projeto político-pedagógico, o diretor da escola é quem assina o Termo de Compromisso de Estágio - feito entre colégio, empresa e estudante. A função, contudo, não é tão burocrática quanto gostariam alguns alunos.

Cabe ao gestor da escola avaliar se as condições propostas pela companhia permitem algum tipo de desenvolvimento do jovem. Isso porque muitas empresas utilizam o contrato de estágio para trabalhos sem nenhuma orientação, afirma o procurador do Ministério Público do Trabalho Cássio Casagrande. "Temos o caso de uma rede de fast food que contratava estagiários para fritar hambúrgueres", exemplifica.

Para estudantes de baixa renda, no entanto, o estágio é encarado como um trabalho. Joana (nome fictício), 16, conta que a remuneração recebida iria para as despesas de casa e suas próprias e para a compra de livros quando fosse aprovada na universidade.

A jovem até foi selecionada para atuar na área de cobrança por telefone de uma firma, mas a diretora de seu colégio se negou a assinar o termo. Justificativa: não se tratava de estágio.

Para o procurador, aprender a se relacionar com o chefe e com os colegas, ter disciplina e adquirir experiência são ganhos "simplesmente acidentais" quando o jovem está inserido no mercado de trabalho. Ele argumenta que estudantes como Joana devem considerar que, como empregados ou aprendizes, receberiam mais e ainda contribuiriam para a Previdência Social.

Jaqueline Teixeira da Silva, 16, teve uma experiência parecida à de Joana. A diretora de seu colégio, em São Paulo, vetou a proposta para que a jovem trabalhasse em um restaurante cinco horas por dia, inclusive nos fins de semana. "Ela explicou que não era estágio. Chamou a minha mãe para conversar e nos convenceu", diz Silva, que continua em busca de uma oportunidade.

 

Fonte: Folha de São Paulo
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