O valor do trabalho
A formação de jovens cidadãos trabalhadores inspira a atuação de educadores que se destacam em Belo Horizonte e São Paulo
Os educadores Fernando Alves, de Belo Horizonte, Gilda Pompéia, de Cotia, na região metropolitana de São Paulo, e Gisele Moreno Ferreira Ducatti, de Indaiatuba, no interior paulista, cultivam a mesma preocupação com a formação de cidadãos para o mercado de trabalho, agindo em diferentes organizações: Fernando atua na Rede Cidadã; Gilda, no Centro de Profissionalização e Apoio ao Emprego (Cepae); e a experiência de Gisele está vinculada à Fundação Indaiatubana de Educação e Cultura e à Secretaria de Estado da Educação.
O sociólogo Fernando Alves, 46 anos, sempre trabalhou com jovens nos seus 23 anos de carreira, incluindo 15 vividos em sala de aula como professor universitário. Mas foi em 2001, quando era Secretário Municipal de Direitos da Cidadania de Belo Horizonte, que surgiu a semente do pensamento sobre o trabalho em rede, para mobilização dos vários segmentos, a fim de gerar emprego e renda para jovens. A idéia de Fernando amadureceu e virou realidade em 2002, com a fundação da Rede Cidadã (www.redecidada.org.br), que tem sede em Belo Horizonte e conta com escritórios em mais sete cidades mineiras, e também no Espírito Santo, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Sinergia setorial
A Rede Cidadã mobiliza e integra três setores fundamentais: público, privado e terceiro setor. “É criando colaboração e sinergia entre as instituições que geramos resultados para os jovens”, afirma Fernando. Para tanto, foi desenvolvida uma metodologia própria de trabalho para a Rede Cidadã, de acordo com o perfil dos parceiros, seja da área privada, como a Accenture e a Vale do Rio Doce, seja com ONGs, como o Comitê para Democratização da Informática.
“Com este método, que chamamos de Rede de Geração de Trabalho e Renda para Jovens, detectamos 11 maneiras diferentes para participação de empresas e organizações sociais, que vão desde o trabalho voluntário para capacitação de jovens até a contratação dos alunos oriundos da rede. Já reunimos 663 empresas e 334 ONGs, que envolveram ações com 21.504 jovens”, diz o sociólogo. Até meados deste semestre, a Rede Cidadã concluirá a inclusão de quatro mil jovens de vilas e comunidades de baixa renda da região metropolitana de Belo Horizonte no mercado de trabalho formal.
Embora concorde que o crescimento econômico tem gerado novos postos de trabalho em todo o País, Fernando percebe dois grandes obstáculos para a empregabilidade da juventude brasileira, especialmente dos jovens oriundos de famílias de baixa renda: “Em primeiro lugar, a baixa formação escolar, cultural e técnica para o trabalho. Essa formação insuficiente tem deixado muitos jovens fora de bons postos de trabalho em empresas estruturadas e que se encontram na lista das melhores empresas para se trabalhar. E esse quadro não é grave somente para postos de trabalho de ocupações mais operacionais, nos quais a juventude de baixa renda mais se emprega. Os filhos de classes mais favorecidas também estão despreparados para postos de trabalho que requerem um grau maior de qualificação, como o domínio do inglês, por exemplo”, diz.
O outro obstáculo seria a forma inadequada como as empresas estão recebendo jovens em sua primeira experiência de trabalho: “Setores como os de fast food e telemarketing têm incorporado o trabalho dos jovens sem nenhuma pedagogia, jogando excessivamente duro com a disciplina. Estabelecem relações de trabalho mecânicas e coercitivas e pagam mal. O resultado é uma alta taxa de troca de funcionários e um desinteresse grande da juventude em trabalhar em algumas empresas desse ramo econômico”.
Atento ao comportamento da juventude brasileira em relação ao trabalho, o educador aponta o desafio. “A Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelou em pesquisa que 30% dos jovens brasileiros não têm interesse em trabalhar. Talvez pudéssemos traduzir que um terço da nova geração está desinteressada pela principal fonte de vida: o trabalho. Estamos tentando recuperar o valor do trabalho como fonte de vida, mostrando aos jovens que vida e trabalho são um só valor.”
Pensando no outro
A alegria da fala de Gilda Maria Pompéia Soares, 47 anos, deixa transparecer o prazer que a professora de História e Filosofia tem em seu ofício. Com 26 anos dedicados ao ensino, Gilda tem muitas histórias para contar. A professora transita entre cenários completamente diferentes, que têm como ponto comum o jovem. Ela é professora nos colégios particulares Santa Cruz e Ágora , em São Paulo, e diretora do Centro de Profissionalização e Apoio ao Emprego, o Cepae (www.cepae.org.br), em Cotia, região metropolitana de São Paulo. Para ela, na essência não há diferença entre o jovem que encontra nas escolas particulares e aqueles que forma no Cepae: “O jovem precisa de uma educação voltada para o outro”, diz a fundadora e presidente da organização, que iniciou suas atividades em 2001, para promover a capacitação de adultos e jovens do município de Cotia e arredores em cursos profissionalizantes e de Informática. Desde então, atendeu 1.570 alunos.
“A instituição surgiu de uma necessidade imposta pelo fechamento de uma grande fábrica têxtil na região, que iria incrementar o número de desempregados em Cotia. Então, juntamente com a Fundação Levis, fizemos um planejamento para a criação do Cepae”, diz Gilda. “Buscamos um trabalho com a comunidade que vai além da capacitação profissional. Queremos dar uma formação holística, preparar nossos alunos para a vida e, conseqüentemente, para o trabalho”, diz.
Embora venha acompanhando o registro de aumento da oferta de empregos nos últimos três anos, Gilda ainda não vê uma relação direta com a qualidade das vagas disponíveis: “Há ainda muito subemprego para o jovem. E vejo que algumas empresas são abusivas, pois sugerem renovação de estágio, por exemplo, apenas para não terem que arcar com mais encargos trabalhistas”.
Como muitos jovens são responsáveis pelo sustento financeiro em casa, Gilda diz que há uma flutuação grande nas turmas do centro, que chegam a perder até metade dos alunos matriculados, que aceitam ofertas de emprego aquém de suas capacidades. O Cepae oferece mais de uma dúzia de cursos profissionalizantes, mas há uma matéria oferecida a todos os aprendizes que por lá estão: as aulas de Ética e Cidadania, para resgate de valores sociais, respeito às diferenças e aumento da auto-estima. Além do conteúdo, há uma preocupação clara com o ambiente onde os alunos se reúnem. Os corredores pintados de branco e azul, as salas bem equipadas, o ambiente externo. Tudo pensado para acolher uma comunidade carente de opções de cultura e lazer. Uma das características do centro é estar sempre de portas abertas.
“Alguns ex-alunos do Cepae são hoje formadores de mão-de-obra, como no curso de garçons e chefes de cozinha. O segredo de qualquer instituição, para dar certo, é ter uma equipe vibrante, que acredita no que faz. E é assim que trabalhamos”, diz Gilda. A organização conta com algumas parcerias, como a Gerdau, responsável pela estrutura da boa biblioteca, com mais de 200 títulos clássicos. Outras empresas ajudam na formação profissional, como o Ibope, que disponibiliza funcionários voluntários para o treinamento de novos pesquisadores de campo. Mas, para ampliar o número de alunos atendidos, a instituição vem trabalhando para atrair novos patrocinadores.
Uma das ações do Cepae é o projeto Ensaio para a Vida, voltado exclusivamente para jovens entre 15 e 21 anos, estudantes do ensino médio e fundamental, com renda familiar de até três salários. Trata-se de um trabalho de recuperação e inclusão social, que resgata a confiança e capacita profissionalmente, ao longo de um ano de ensino. “O jovem precisa de uma educação voltada para o outro”, insiste a professora Gilda. “O individualismo não escolhe classe social. Acho que a sociedade deve acompanhar muito de perto essa questão”, alerta.
Política pública
Indaiatuba, município a 100 km de São Paulo, já é conhecido como um dos maiores produtores de uva do estado e como sede da maior colônia suíça do Brasil. Mas vem se destacando também como cidade da empregabilidade juvenil. O título ganha reforços com o convênio firmado, neste ano, entre a Fundação Indaiatubana de Educação e Cultura, a Fiec (www.fiec.com.br), uma autarquia municipal, e a Secretaria de Estado de Educação (www.educacao.sp.gov.br). A iniciativa permite nada menos que oferecer cursos técnicos a 100% dos cerca de dois mil estudantes matriculados no último ano do ensino médio da cidade.
Em um projeto deste porte, há muita gente envolvida. Mas a professora Gisele Moreno Ferreira Ducatti, 47 anos, está no olho do furacão. É professora na Fiec e também supervisora da rede estadual. Ou seja, acompanha o processo dos dois lados, vivendo-o em tempo integral. Do alto de seus 28 anos de profissão, Gisele, que leciona Química, se entusiasma com o potencial dessa parceria que, acredita, é uma iniciativa que está servindo de exemplo para outras no estado: “É uma experiência única participar de um projeto que apresenta uma política pública inédita”.
Para traçar o plano do que seria essa parceria entre estado e fundação, foi realizada uma pesquisa para entender a demanda do mercado da região. Quais seriam os profissionais fundamentais que as indústrias – de uma região próspera, cercada de cidades industrializadas como Campinas, Sorocaba e Itu – poderiam absorver? Uma questão simples que foi determinante para a escolha dos cursos técnicos que seriam oferecidos.
“Detectamos, por exemplo, que a região, por sua vocação econômica, tinha carência de cursos de Informática, Logística, Segurança do Trabalho e Processos Químicos. Por isso, eles foram incorporados ao convênio”, diz Gisele. A Fiec já oferecia, no formato tradicional, todos os cursos que hoje fazem parte do programa (exceto o de Segurança do Trabalho), e seu sucesso se traduz no concorrido vestibular para suas vagas, que praticamente asseguram um posto de trabalho ao fim do curso.
O convênio entre prefeitura e estado está permitindo a ampliação desse sucesso, com a implantação dos cursos técnicos dentro das escolas estaduais, com um complemento de seis meses, depois que o aluno completa o ensino médio, dedicado à especialização – o que aumenta as chances de absorção pelo mercado de trabalho.
Esse modelo híbrido de formação técnica e ensino regular eleva o índice de alunos contratados a 98%. Mas ao lado de todo o planejamento estratégico para realização desse projeto-piloto, Gisele destaca a qualidade da formação do jovem, que não é exclusivamente técnica, mas investe também na disseminação de valores de cidadania. “O jovem aluno percebe o tratamento que recebe e devolve com respeito. É um processo de aprendizado que eles levarão para a vida”, acredita a educadora.
Fonte: Onda Jovem / por Simone Barreto

